domingo, 16 de agosto de 2009

Bonita impossível de se conviver

Seis e meia da tarde - viu no relógio da televisão - Bonita remexeu-se impacientemente no sofá amarelo queimado. Olhou para o chão e decidiu que contaria os azulejos riscados para passar o tempo. 1, 2, 3, 8, 14, e ao chegar no 16 perdeu logo a paciência, pois disso não possuía muito e facilmente se irritava, era bastante temperamental essa menina. Dedicou-se a relembrar as palavras que ouvira naquele dia, gostava de repassar o visto e o sentido. Sua língua se movimentava lentamente ao simular as palavras que tanto amava; língua lenta, leve, levada, ludibriosa de garota impossível de se conviver. E por fim, isso era exatamente o que queria pensar e lembrar, lembrar que era uma garota impossível de se conviver e então poderia rir de si mesma e continuar vivendo sem o peso da simpática obrigação de torna-se uma pessoa mais fácil – coisa que provavelmente nunca seria -.

Já havia se passado outro quarto de hora quando finalmente o barulho da porta invadiu os seus ouvidos, Bonita, que como já se tinha dito era impossível de conviver, fez de conta que não tinha passado longos minutos deitada, quase sem se mover, esperando para ouvir o destrancar daquela porta. Voltou a sua atenção para a televisão que até então ignorava e pelo canto dos olhos pôde vê-lo entrar cansado, segurando sua velha maleta, com a gravata a aperta-lhe o pescoço gordo. Subiu ainda mais os olhos e viu o seu rosto escuro, e nem a gravata apertada e nem o peso do dia conseguiam tirar aquele semblante de 12 anos que ele tinha, e como todo dia Bonita se impressionou com isso, achando bobo e fascinante ao mesmo tempo. Pois esse era o único motivo pelo qual esperava naquele sofá, só para se surpreender outra vez com a capacidade de infância dele. Exclusivamente para sentir que tudo ao redor era diminuto, e qualquer problema tinha de ser efêmero; como não seria? Se ele chegava rindo-se todos os dias?

Observava-o passar e limitava-se a dar um curto aceno com a cabeça, o breve comprimento não era maldade, era só a dificuldade afetiva de uma menina impossível de se conviver. Enfim deixou-se relaxar mais um pouco e começou a pensar que aquele homem da sua casa só podia ser a prova de duas coisas: a efemeridade dos problemas e a eternidade de Deus. E essa resolução a faria dormir mais calma noite pós noite, fechou os olhos com um curto sorriso, afinal os problemas eram efêmeros e Deus era eterno, pois aquele homem chegava todos os dias de gravata apertada no pescoço gordo e sorriso de doze anos no rosto escuro. Bonita permitiu-se embalar pelas risadas dele e da outra que vinham da cozinha, se permitiu sentir-se segura com aquele som habitual que eles produziam todas as noites antes de encontrarem Betânia.

Poucos depois eles estavam de saída, ele passou e cutucou-lhe os pés, disse que a amava e perguntou se ela o amava também; o coração dela dava compassos tranqüilos de certeza mesmo que sua resposta tenha sido curta e hesitante, e nem se preocupava, tinha certeza que ele sabia toda a sua verdade.

Mesmo assim, Bonita se perguntava como poderia gostar tanto dele. Ele gostava de ficar em casa a maior parte do tempo, e Bonita adora ir embora a maior parte do tempo. Se ela fica em um mesmo lugar durante muito tempo, perdia a cabeça, pois era uma garota impossível de se conviver. Foi então que se lembrou da gravata apertando o pescoço gordo, da velha maleta e do rosto escuro, e mais ainda, lembrou-se que ele era a prova da efemeridade dos problemas e da eternidade de Deus; e por isso, Bonita, que era uma menina impossível de se conviver, podia dormir em paz.

Autoração

e o que eu escrevo não for meu
Sou mendigo despossuído
Se o que eu escrevo não for eu
Tenho apenas espaço vazio
- corrompido

Se as palavras não se libertarem da minha mente,
Meu coração não deixará que eu voe
E mesmo que meus ouvidos
Sejam bons recipientes
Morrerei sufocada
Pelo temor do não criar

Poderia desejar ter descoberto
- o descobrido
E com rancor
Amaldiçoar o bem cumprido;
Escolho, porém, uma prepotência
- Humilde
De escrever o eu; e
Ser o meu

Mal escrito





(Justificando o mau gosto e falta de habilidade aeee galeraaa)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Doces palavras ácidas - cor de molho chinês - fazendo mágica em corações partidos.

Raios lasers e balas de canhão ultra-sônico passam sobre minha cabeça e por um segundo eu não sei o que fazer. Escondida atrás do sofá púrpura à prova de balas, aperto com força o meu super celular prateado, a pressão que faço sobre o pequeno objeto faz com que minhas mãos fiquem pálidas pelo esforço sobrenatural. Mas não me importo, a dor é mínima, pois minha esperança está acesa e a fé que tenho não se abala, pois o meu super celular prateado a qualquer momento irá tocar e aquela chamada confidencial irá me salvar da dor do morrer só.

Finalmente sinto o super celular prateado vibrar contra a palma da minha mão morena e a pequena descarga elétrica que sempre detestei de repente me pareceu extremamente encantadora, pois o número não identificado que brilhava no visor do pequeno objeto significava que o meu parceiro não falharia que mais uma vez ele iria me resgatar. Com pressa atendi ao telefone e num milésimo de segundo meu corpo foi tele transportado e nós podíamos, então, salvar o mundo todo na praia com armas simples e eficientes, salvar o mundo todo com amendoim e skol.

Em tempos passados éramos em maior número, uma instituição poderosa que acolhia jovens com super poderes, mas algo que não prevíamos aconteceu. As forças do mal chacoalharam nossas bases sólidas; o professor Metáfora desertou. Jean perdeu o controle de sua mente, os efeitos foram devastadores, desde então nunca mais vimos Ciclop. E, como se nossas perdas não fossem suficiente, a bela Alice, com seus grandes olhos cor de avelan, tomou algo no país das maravilhas e começou a diminuir, diminuir, diminuir até ficar invisível a olhos nus. No momento, eu e meu parceiro do número confidencial estamos gastando nossos dias para desenvolver a porção que reverta o quadro e nos devolva nossa amada Alice sã e salva.

Pelo canto do olho observo meu parceiro evitando sorrir demais, enrolo a parte branca do meu cabelo, amaldiçoando o meu poder com as palavras, desejando poder atravessas paredes ou desaparecer, como um mutante comum. Mas o que eu tenho são palavras ácidas que disparadas na velocidade certa poderiam ferir o mais forte dos mortais. Embora ele negue, penso que meu parceiro tem o poder de ler minha mente, pois como que soubesse de minhas agonias ele segura o meu braço e então faz agir em mim o seu super poder, meu parceiro tem o dom de fazer a dor ir embora. Ele me olha ainda e diz que minhas palavras são quase doces e fazem bem pra sua alma e, talvez, para de outros. E, como se o Potter tivesse lançado um encantamento sobre mim, eu me acalmo. Pois o meu parceiro tem o dom de fazer a dor ir embora. Sendo assim minhas palavras reorganizarão nosso mundo, que já sem dor voltará a funcionar e respiraremos em segurança sem o nosso tubo de ar.

Para que nunca esqueçamos de tudo que vivemos, no espaço curto de tempo da nossa recente união, escrevo com minhas palavras mágicas dentro de uma cápsula temporal que será aberta daqui a meio século, entrego ao meu parceiro, levanto-me a bato a areia de minhas mãos, já posso ir pra casa sã e salva.

Dentro da cápsula temporal endereçada ao meu parceiro estão escritas, em minha letra feia, algumas palavras bonitas:

50 anos se passaram. 50 mais passarão. E ainda somos eu e você, fazendo a dor ir embora.