Seis e meia da tarde - viu no relógio da televisão - Bonita remexeu-se impacientemente no sofá amarelo queimado. Olhou para o chão e decidiu que contaria os azulejos riscados para passar o tempo. 1, 2, 3, 8, 14, e ao chegar no 16 perdeu logo a paciência, pois disso não possuía muito e facilmente se irritava, era bastante temperamental essa menina. Dedicou-se a relembrar as palavras que ouvira naquele dia, gostava de repassar o visto e o sentido. Sua língua se movimentava lentamente ao simular as palavras que tanto amava; língua lenta, leve, levada, ludibriosa de garota impossível de se conviver. E por fim, isso era exatamente o que queria pensar e lembrar, lembrar que era uma garota impossível de se conviver e então poderia rir de si mesma e continuar vivendo sem o peso da simpática obrigação de torna-se uma pessoa mais fácil – coisa que provavelmente nunca seria -.
Já havia se passado outro quarto de hora quando finalmente o barulho da porta invadiu os seus ouvidos, Bonita, que como já se tinha dito era impossível de conviver, fez de conta que não tinha passado longos minutos deitada, quase sem se mover, esperando para ouvir o destrancar daquela porta. Voltou a sua atenção para a televisão que até então ignorava e pelo canto dos olhos pôde vê-lo entrar cansado, segurando sua velha maleta, com a gravata a aperta-lhe o pescoço gordo. Subiu ainda mais os olhos e viu o seu rosto escuro, e nem a gravata apertada e nem o peso do dia conseguiam tirar aquele semblante de 12 anos que ele tinha, e como todo dia Bonita se impressionou com isso, achando bobo e fascinante ao mesmo tempo. Pois esse era o único motivo pelo qual esperava naquele sofá, só para se surpreender outra vez com a capacidade de infância dele. Exclusivamente para sentir que tudo ao redor era diminuto, e qualquer problema tinha de ser efêmero; como não seria? Se ele chegava rindo-se todos os dias?
Observava-o passar e limitava-se a dar um curto aceno com a cabeça, o breve comprimento não era maldade, era só a dificuldade afetiva de uma menina impossível de se conviver. Enfim deixou-se relaxar mais um pouco e começou a pensar que aquele homem da sua casa só podia ser a prova de duas coisas: a efemeridade dos problemas e a eternidade de Deus. E essa resolução a faria dormir mais calma noite pós noite, fechou os olhos com um curto sorriso, afinal os problemas eram efêmeros e Deus era eterno, pois aquele homem chegava todos os dias de gravata apertada no pescoço gordo e sorriso de doze anos no rosto escuro. Bonita permitiu-se embalar pelas risadas dele e da outra que vinham da cozinha, se permitiu sentir-se segura com aquele som habitual que eles produziam todas as noites antes de encontrarem Betânia.
Poucos depois eles estavam de saída, ele passou e cutucou-lhe os pés, disse que a amava e perguntou se ela o amava também; o coração dela dava compassos tranqüilos de certeza mesmo que sua resposta tenha sido curta e hesitante, e nem se preocupava, tinha certeza que ele sabia toda a sua verdade.
Mesmo assim, Bonita se perguntava como poderia gostar tanto dele. Ele gostava de ficar em casa a maior parte do tempo, e Bonita adora ir embora a maior parte do tempo. Se ela fica em um mesmo lugar durante muito tempo, perdia a cabeça, pois era uma garota impossível de se conviver. Foi então que se lembrou da gravata apertando o pescoço gordo, da velha maleta e do rosto escuro, e mais ainda, lembrou-se que ele era a prova da efemeridade dos problemas e da eternidade de Deus; e por isso, Bonita, que era uma menina impossível de se conviver, podia dormir em paz.
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Você escreve bem, monitora de Sueli, que bela surpresa... ^^
ResponderExcluiraparecerei mais vezes...
abraço